Planta carnívora confirma previsão feita por Darwin há 150 anos; entenda
Exemplar florido da Saxifraga candelabrum com vários insetos presos nos pelos pegajosos que cobrem a planta. Xin-Jian Zhang Uma pequena planta que cresce em fe...
Exemplar florido da Saxifraga candelabrum com vários insetos presos nos pelos pegajosos que cobrem a planta. Xin-Jian Zhang Uma pequena planta que cresce em fendas de rochas nas montanhas do Himalaia e do Tibete acaba de ganhar um novo título: o de planta carnívora. Pesquisadores chineses e americanos confirmaram que a Saxifraga candelabrum é capaz de atrair, prender, digerir e absorver nutrientes de insetos — validando uma suspeita que Charles Darwin já havia levantado há mais de um século e meio, mas que nunca havia sido comprovada. Em 1875, no livro "Insectivorous Plants", Darwin já havia notado que algumas espécies do gênero Saxifraga possuíam pelos glandulares pegajosos — parecidos com os de plantas carnívoras conhecidas, como as sundews (também chamada de drósera) — e que insetos ficavam frequentemente grudados neles. Ele chegou a testar a hipótese com experimentos de alimentação, mas não obteve resultados conclusivos. Sem provas definitivas de digestão, a ideia ficou engavetada por gerações. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias em tempo real e de graça Agora, um grupo de pesquisadores liderado por Hang Sun, do Instituto de Botânica de Kunming, na China, retomou a questão usando ferramentas que Darwin jamais teve à disposição para testar se a S. candelabrum realmente se enquadra na definição científica de planta carnívora. 📝 ENTENDA: Para ser considerada carnívora, uma planta precisa passar por quatro etapas bem definidas: atrair a presa, capturá-la, digeri-la e absorver os nutrientes liberados. Não basta prender um inseto acidentalmente. Os cientistas passaram por cada uma dessas etapas. Primeiro, observaram plantas no campo e analisaram registros históricos de herbário: 43 das 45 amostras coletadas entre 1888 e 2016 tinham insetos presos aos pelos glandulares, e cada planta adulta continha, em média, 71 insetos capturados. Testes com armadilhas visuais e de cheiro mostraram que a planta também libera compostos voláteis que ajudam a atrair certos insetos — um mecanismo de atração ativa, e não apenas passiva. LEIA TAMBÉM: Estrutura geológica gigante no deserto do Saara parece um 'olho' visto do espaço; veja IMAGEM 'O que aprendi ao viver um ano sozinho com um gato em uma ilha remota' Cientistas descobrem microplásticos no corpo de girinos da Amazônia Agora no g1 Curiosamente, a planta parece ser seletiva: os insetos maiores, responsáveis pela polinização, raramente ficam presos, enquanto pequenas moscas do tipo mosquito-pólvora, que pouco contribuem para a reprodução da planta, são as principais vítimas. É como se a planta soubesse separar "amigos" de "comida". Na etapa seguinte, testes enzimáticos revelaram atividade de fosfatase — uma enzima digestiva comum em plantas carnívoras — nos pelos da S. candelabrum, algo que não apareceu em uma espécie aparentada e não carnívora usada como comparação. Por fim, veio a prova mais contundente: os pesquisadores alimentaram moscas-das-frutas com um tipo especial de nitrogênio marcado (chamado nitrogênio-15) e colocaram esses insetos sobre a planta. Semanas depois, o nitrogênio marcado apareceu nos tecidos da Saxifraga, especialmente nas flores — sinal de que ela realmente absorveu nutrientes vindos dos insetos capturados, e não apenas do solo. "Mais de um século depois de Darwin propor que algumas espécies de Saxifraga poderiam ser carnívoras, este estudo oferece uma resposta clara", escreveram os autores no artigo. LEIA TAMBÉM: Por que Amsterdã proibiu qualquer propaganda de carne nas ruas ANTES e DEPOIS: imagem da Nasa mostra geleira na Antártida que recuou 25 km em tempo recorde A erupção vulcânica que produziu o som mais alto registrado na história Detalhe dos pelos pegajosos da Saxifraga candelabrum, usados para capturar pequenos insetos. Xin-Jian Zhang Aliado a isso, a equipe também sequenciou o genoma completo da planta e comparou seus genes com os de outras espécies carnívoras já conhecidas, como a Drosera (planta-orvalho) e a Nepenthes (planta-jarro). Com isso, eles encontraram sinais de evolução convergente — ou seja, genes ligados à digestão, absorção de nutrientes e formação das estruturas de captura evoluíram de forma parecida em linhagens completamente diferentes de plantas carnívoras, mesmo que essas espécies não tenham parentesco próximo. Isso sugere que, ao longo da história evolutiva, diferentes grupos de plantas "reinventaram" soluções semelhantes para sobreviver em solos pobres em nutrientes — nesse caso, em rochas áridas de alta montanha, um ambiente bem diferente dos pântanos e brejos onde a maioria das plantas carnívoras costuma viver. Nova espécie de "fungo zumbi" é descoberta no Brasil